[menos] [des]esperançosa

um dia você olha para o mundo. você está de pé ao lado da janela [observando o céu da cor da televisão sintonizada num canal fora do ar], bebendo uma xícara de chá que veio do outro lado do mundo, ou um copo de água talvez: e então você olha para o mundo.
e pela primeira vez em algum tempo, te assusta.
 
governos neo-liberais ascendem onde já haviam causado estragos antes. ultranacionalismo e xenofobia agora também vêm daqueles que um dia morreram lutando contra eles.
você olha para uma foto de você mesma numa tela azul, você olha fundo dentro dos seus próprios olhos e você vê: você vê uma pessoa: e você se pergunta: sou eu mesma? e se sou eu mesma, quem sou eu?
você não consegue sentir realmente alguma coisa quando lê ou vê ou ouve as notícias [e isso é estranho, se você for pensar nisso, mas você tenta não pensar nisso]. você foi bombardeada muitas vezes pelo sensacionalismo, ao ponto de ser dessensibilizada. mais um sai atirando em outras pessoas. outro golpe de estado. outro país vota contra seu próprio futuro. outra centena de pessoas são mortas no oriente médio. outro barco naufraga no mediterrâneo. outro dia passa.
outro dia no qual você faz o que você não queria fazer. uma dor aguda e profunda no seu peito, mas você não está assustado: você já sentiu aquilo muitas vezes antes. você sabe o que é: você já leu sobre aquilo na internet: você sabe que é a combinação de estresse e ansiedade, aqueles dois velhos amigos cujas visitas são cada vez mais frequentes.
mas não tem nada que você possa fazer, tem? nem por você, nem por qualquer outra pessoa, nem pelo mundo. você checa seu feed de notícias. com um toque do seu dedo um gato sorridente é aumentado na tela. você olha para ele, você ri. ah, você precisava daquilo: aquele gato bobinho. mas não tem nada que você possa fazer — tem? nem por você, nem pelos outros. outro final de semana. um novo par de sapatos, outro eletrônico — mas ah, você precisava daquilo. outra vez na qual você ignora as crianças que o montaram. mas que poder você tem?
você não tem poder nenhum. e você tem ciência disso. você não é uma corporação. você está vivendo em um mundo capitalista, mas se chamar de capitalista seria ridículo ao ponto de ser hilário. ah, não… você não é um daqueles. talvez você seria se tivesse a chance: talvez você conseguiria se convencer de que o que você estaria fazendo seria certo, talvez você poderia dizer a si mesmo que de várias maneiras steve jobs melhorou o mundo no qual vivemos hoje. mas você não teve a chance: você não teve muitas chances, pra começar. então você trabalha e estuda e tenta fazer sua vida cotidiana ter algum sentido, ter alguma significância: mesmo que só para você. mas você não pode fazer nada — pode?
pode? a questão ecoa.
eu sou só um narrador. não estou aqui para dar respostas.
sou um texto ficcional.
não sou um oráculo.
sou ficcional [— ou não sou?].
estou tão perdida quanto você.
você. e eu. e sete bilhões de outras pessoas. e o fluxo implacável do nosso mundo informacional.
mas, ei… pelo menos encontramos um ao outro, não é? ao menos através dessa rede gigantesca sua retina entrou em contato com essas palavras.
nem tudo está perdido.
você não está perdido até o dia em que desiste.
muitos desistem antes de terem um metro.
muitos lutam por décadas só para finalmente caírem.
muitos lutam até o dia em que seus corpos morrem e seus dedos esfriam. muitos lutam até o dia em que param de envelhecer.
e entre esses, há as lutas pacíficas
as violentas
aqueles que lutaram nos holofotes
aqueles que lutaram escondidos
aqueles que mal e mal lutaram, se lutaram
e aqueles que nem chamariam de luta.
há força em resistir.
há leveza e há paz.
não deixe que te digam que é inútil: de muitas formas, pode ser. você não pode mudar a maré. seria sem sentido e tolo e doloroso tentar. poderia destruir suas chances de ser até mesmo moderadamente feliz: mundial e internamente. mas você é parte dela, da maré: e como parte dela, você tem um efêmero e micro-poder. efêmero e pequeno, mas importante de qualquer forma. você é uma parte da máquina e como o pequeno monte de bytes que você é você pode lutar contra ela.
há uma maneira de você fazer isso:
procure-a e a encontrará.
sua própria maneira, eu prometo.
[mas não desista sem lutar]
tradução do original: [less] hope[less]
(Carol Smnt.)
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